InícioFundãoVeio do Brasil para clonar as plantas da Beira

Veio do Brasil para clonar as plantas da Beira

clayton debias

Veio do Brasil para o Fundão com dois grandes desafios na bagagem: liderar uma das áreas de investigação (micropropagação de plantas) do Centro de Biotecnologia de Plantas da Beira Interior (CBPBI) e ajudar a projetar uma biofábrica (produção em laboratório de plantas novas, em larga escala) no Fundão. Investigador de renome na área da biotecnologia vegetal aplicada ao mundo empresarial, Clayton Debiasi é especialista em micropropagação de plantas (tecnologia que mais não é do que a clonagem vegetal in vitro) e membro do grupo de investigadores do CBPBI, a funcionar em instalações da Escola Superior Agrária de Castelo Branco.
Dirigia uma das maiores biofábrias da América Latina, quando foi desafiado pelo presidente da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, a deixar o Brsasi para ficar à frente da micropropagação de plantas no CBPBI. “Correu atrás”, como dizem os brasileiros, ou não fossem as plantas a sua paixão de sempre deste Agrónomo, mestre e doutorado naquela área.
Sete meses depois de ter chegado ao Fundão, não está arrendido de ter arriscado uma reviravolta de 180 graus na sua vida. “Esta região é bonita demais”, diz com um sorriso simpático, elogiando “as paisagens maravilhosas que enchem os olhos e o espírito”.
A vontade de deixar o mundo académico fez-se sentir alguns anos antes de vir para Portugal. “Tinha sucesso como professor e investigador universitário, com vários estudantes para orientar, artigos científicos publicados e inúmeros convites para dar palestras mas, do ponto de vista pessoal, não me sentia feliz e realizado”.
Despediu-se e viajou pela América Latina. Regressado ao Brasil, foi então contratado pelo laboratório, que detém a maior biofábrica do Brasil e de que Clayton foi diretor e responsável técnico até vir para Portugal.

clayton debias

“Sou investigador, mas o meu foco de trabalho sempre tem como objetivo a aplicação comercial dos resultados na empresa”, esclarece. E foi precisamente no papel de responsável dessa grande biofábrica de plantas que o Fundão se atravessou no caminho deste brasileiro.
Clayton mora no Fundão, que diz adorar (condição sugerida pelo presidente da Câmara) e trabalha em Castelo Branco. Passa muito tempo no laboratório do CBPBI, onde centenas de plantas (as melhores) crescem e se desenvolvem dentro de frascos de vidro, em ambiente rigorosamente controlado. São plantas bebés e requerem ser tratadas como tal. “Apenas clonamos as melhores”.
“É, absolutamente, fascinante a capacidade de resposta de uma célula vegetal e fascina-me demais o facto de o homem poder manipular essas células a seu favor. Acho isso muito bonito. Uma célula vegetal tem a capacidade de regenerar um organismo inteiro e, portanto, isolando uma célula é possível gerar uma planta completa e propaga-la”, explica Clayton, adiantando que, manipulando a célula e otimizando o ambiente, é possível clonar uma planta inteira, propagar partes específicas, produzir apenas células, fazendo-as produzir princípios ativos ou substâncias vegetais, para fins cosméticos, terapêuticos e alimentares. É também possível propagar e conservar in vitro espécies em risco de extinção.
“Pretendemos melhorar e valorizar materiais vegetais locais e regionais”, afirma o cientista, lembrando que a bioprospecção de espécies e variedades locais e regionais é outro dos objetivos.
“Nesta fase inicial, estamos a trabalhar algumas linhas específicas de investigação, utilizando espécies como o mirtilo, o castanheiro, a lavândula, a carqueja, o medronheiro, etc”, revela, sublinhando que a estratégia é apostar em materiais vegetais regionais, selecionados com intuito de possibilitar clonagem eficiente de plantas matrizes com alta qualidade genética e fitosanitária, transferindo conhecimento, tecnologia e materiais de elite para a cadeia produtiva, tendo em vista a criação ou renovação de pomares.
Clayton ama as plantas e os seus olhos brilham sempre que fala desse “quase milagre” da clonagem e da inesgotável capacidade das células vegetais. O primeiro dos desafios que Clayton trouxe na bagagem já está a ser concretizado. O outro ainda não saiu do papel. É o da criação de uma biofábrica de produção de novas plantas, que, garante, “acontecerá no Fundão”.

Lúcia Reis