InícioFundãoCegonhas abrem “guerra” entre Quercus e Misericórdia

Cegonhas abrem “guerra” entre Quercus e Misericórdia

ÁRVORES cortadas e ninhos, alegadamente, derrubados. O cenário na Quinta das Nogueiras, no Fundão, levou a Quercus a apresentar queixa contra a Santa Casa da Misericórdia do Fundão, entidade que é proprietária da quinta e que terá promovido o corte de várias árvores, onde estariam ninhos de cegonha branca, uma espécie protegida.

A Quercus garante que foram cometidos vários crimes, mas a Misericórdia refuta tais acusações e sublinha que respeitou as orientações do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Vai ainda mais longe e sublinha que no mesmo dia em que a Quercus fez a denúncia pública, uma equipa do ICNF esteve novamente no local, tendo reafirmado que a ação da Misericórdia não pôs em causa nem as cegonhas nem a nidificação das mesmas.

“Cumpre-nos informar que não foi detetado o abate de carvalhos com ninhos de cegonha, não foi percetível a destruição de qualquer ninho, nem foi detetada a ocultação de ninhos”, é referido pelo ICNF numa informação dirigida à Misericória, e à qual o JF já teve acesso.

Versão bem contrária apresentou o dirigente distrital da Quercus, Samuel Infante, para quem a ação ocorrida naquele espaço configura vários crimes, tais como o crime ambiental, o crime de destruição de habitats protegidos e o de perturbação da época reprodutora.

Segundo referiu, ainda que as árvores em causa (carvalhos) não sejam espécies protegidas por si só, devem ser salvaguardadas caso integrem um habitat natural protegido. Uma classificação que a Quercus não hesita em atribuir à zona florestal em que ocorreu o abate, visto que há ali uma colónia de cegonhas brancas, como facilmente se comprova pelos ninhos que se mantêm nas árvores que não foram abatidas.
Salientando que esta não é a primeira vez que a Misericórdia procede à desflorestação do espaço, a Quercus também vinca que o último abate terá ocorrido há cerca de um mês, em “plena época de reprodução” das cegonhas.

Uma ação que, suspeita Samuel Infante, pode ter sido cometida conscientemente e com dolo: “Ao que parece, há alguns indícios de que estariam a enterrar ninhos, portanto não seria um ato negligente, mas com dolo, o que se reveste ainda de maior gravidade”, apontou.

Acusações que a Santa Casa da Misericórdia do Fundão rejeitou no próprio dia. Em comunicado, a Misericórdia esclarece que seguiu todas as orientações do ICNF, as quais foram transmitidas após uma deslocação ao local pedida pela Santa Casa exatamente para que a ação decorresse de acordo com a legislação e procedimentos administrativos previstos. A instituição também garante que o abate foi realizado entre final de 2016 e início de 2017, respeitando o período de nidificação das cegonhas.

Por outro lado, diz mesmo que ao proceder à limpeza da propriedade, a instituição está a proteger o habitat das cegonhas e afirma que o número de ninhos até aumentou na sequência da intervenção realizada.

Catarina Canotilho