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Almaraz, a central que divide dois países

O JF esteve na região transfronteiriça a ouvir argumentos de quem defende e está contra a central nuclear mais próxima da região das Beiras. Os que a defendem são os que nela trabalham. Licença de funcionamento da Central Nuclear de Almaraz termina em 2020. Habitantes da região recusam prolongamento

– “Se me dissessem que iria ser construída uma central nuclear ao lado da atual, eu estaria totalmente de acordo, porque a região precisa de empregos. Falam, falam, mas não conheço provas de impactos negativos da Central Nuclear de Almaraz. O que sei é que ela evitou que muitas pessoas se fossem embora por falta de trabalho”. A posição de Heodoro Alonso não difere das restantes opiniões auscultadas na localidade de pouco mais de 1600 habitantes com vista para a central nuclear que adotou o mesmo nome: Almaraz.

No recinto de mais de 1600 metros quadrados, cercado por arame farpado e sob um apertado sistema de vigilância, destacam-se os dois grandes edifícios com cobertura oval branca. A 100 quilómetros da fronteira com Portugal em Idanha-a-Nova, a central nuclear produz cerca de oito por cento da eletricidade produzida em Espanha de uma forma aparentemente tranquila numa paisagem verdejante, por onde passa o Rio Tejo. No horizonte avista-se neve no cume da Serra de Griedos. A tranquilidade em torno da central nuclear de Almaraz é aparente, porque o empreendimento está na ordem do dia desde que se soube da intenção de ali ser construído um aterro de resíduos nucleares. Os movimentos antinuclear não têm dúvidas: o armazenamento servirá para prolongar a vida da central, embora a sua vida útil tenha terminado em 2010 (foi emitida nova licença que termina em 2020). “Este é o pretexto para adiar o final de vida da central, previsto e que lutamos que aconteça em 2020, e estendê-lo por mais 30 anos”, afirma José Maria González Mazón, o porta voz do Fórum Extremenho Antinuclear mais conhecido por “Chema”, com quem o JF tenta conversar no restaurante-bar “Portugal” (denominação porque está instalada na autoestrada para Portugal) na localidade de Almaraz. Tenta, porque os locais atiram-lhe com argumentos quando o identificaram como ativista antinuclear.

Heodoro Alonso é agricultor e está acompanhado de dois amigos, que trabalharam durante décadas na central nuclear – que não quiseram identificar-se. Estão informados que Portugal vai formalizar nos próximos dias uma queixa a Bruxelas pelo facto de Espanha ter autorizado a construção do aterro de resíduos nucleares sem ter avançado com um estudo de impacto ambiental. A posição do Governo português é implacável. Por causa dessa autorização dada, sem consulta ao país vizinho, o Ministro do Ambiente anunciou que iria faltar à reunião marcada para dia 12 com a sua homóloga espanhola. A diplomacia colocou-se em campo e o encontro ocorrerá.

Almaraz também é combatido a nível político. Na semana passada, a Assembleia da República aprovou por unanimidade um voto de condenação à autorização da construção do aterro na central de Almaraz.

“Acho mal. Se dessem dinheiro a Portugal, o vosso país mudaria de posição”, retoma Heodoro Alonso. Na verdade, cada município (ayuntamiento) da zona nordeste da Extremadura espanhola recebe verbas compensatória por parte das empresas proprietárias da central nuclear: Iberdrola, Únio Fenosa e Endesa. Os presidentes desses municípios, e seus familiares, trabalham na central.

O ativista antinuclear, José Maria González Mazón (Chema), não demove. “Seria preferível fechar a central, do que ser fechada por uma acidente que tivesse efeitos em Espanha, Portugal e França”.

São 400 as pessoas que a central emprega. De 18 em 18 meses, devido a trabalhos de renovação de combustíveis, emprega mais duas mil durante mês e meio, a ganhar entre três mil a cinco mil euros. Chema não é insensível às questões da empregabilidade. “Já deveríamos estar neste ponto, de estudar quais as formas de desenvolvimento depois do encerramento da central”, diz enquanto lamenta a demora do governo português numa tomada de posição. “Avisámos o governo português que não existia estudo de impacte. É positivo que haja queixa a Bruxelas, mas a autorização dada pelo Governo espanhol só pode ser contestada até final de janeiro. Entre o envio da queixa e a sua análise na Comissão Europeia, uma posição de Bruxelas não será conhecida tão cedo”.

Da parte Foro Extremeño antinuclar os próximos caminhos são os das vias judiciais. “Os atuais armazéns que a central detém têm capacidade suficiente p receber os resíduos que a Almaraz vai produzir até 2020. Com a construção de um aterro de resíduos, tememos que seja atribuído uma nova licença à central”.

NOTA

O primeiro reator da Central Nuclear de Almaraz começou a operar em 1981 e o segundo em 1983. Nos últimos anos ocorreram vários acidentes na central. “Se acontecer um acidente maior, haverá efeitos na atmosfera e no Tejo”. Os custos de construção da estrutura estão pagos há muito tempo. A cada dia, a central produz um milhão de euros em lucros, segundo o movimento anti nuclear. “Sendo a mais vantajosa do ponto de vista económico de toda a Espanha, está em parte explicado o porquê de não a quererem encerrar dentro do prazo que está previsto”, diz Chema.

Numa freguesias servida por rio, poucos são aqueles que não atiram a cana à água. Em Salvaterra do Extremo, no concelho de Idanha-a-Nova, João Robalo de Jesus é um dos “viciados” da pesca. Por esta paixão faz dezenas de quilómetros para ir pescar à barragem de Alcântara (Espanha) “apenas por desporto” porque o peixe é devolvido ao rio. “Ainda que não fosse essa a minha postura na pesca, nunca iria comer um peixe daquela barragem”, explica com medo de água estar contaminada. A Barragem de Alcântara é servida pelo Rio Tejo que, quilómetros antes, fornece a água necessária para a refrigeração da Central Nuclear. É precisamente em algumas destas bombas que tem acontecido alguns incidentes.

Em janeiro de 2016, um grupo de peritos do Conselho de Segurança Nuclear espanhol reconheceu que não existiam garantias do normal funcionamento do sistema de refrigeração com base em duas avarias ocorridas em menos de quatro meses. O jornal El País, que noticiou esta situação, acrescentava que os mesmos peritos referiam que não estava a ser feita uma revisão periódica aos motores onde se registaram falhas há 19 anos.

O risco de Almaraz não está assim apenas vedado à questão dos resíduos, como também ao risco de acidentes, face aos 30 anos de vida da central nuclear.

Na prática, se ocorrer um problema nas bombas que levam a água de refrigeração até ao ponto onde se dá a reação, este sistema para e provoca um aquecimento e aumento de pressão. Se não houver evacuação, pode-se então imaginar o que pode acontecer…

Na região transfronteiriça de Portugal e Espanha, as populações não parecem estar de costas voltadas para o perigo.

“Sou contra a central de Almaraz, assim como sou contra esse armazém (aterro de resíduos sólidos) que lá querem construir”, diz-nos João Robalo. Em Salvaterra do Extremo a polémica quanto à construção do aterro na central, assim como o funcionamento desta para além do prazo definido (ano de 2020) chega por via das televisões. “Acho muito bem que o nosso governo faça alguma coisa. Acho aliás que esta coisa de se construir ou não o aterro sirva para se falar da própria existência da central”, atira João Roseiro.

Na localidade de Almaraz, a central nuclear é defendida pelos locais “con ganas”, mas basta percorrer uns 10 quilómetros para verificar mudança de opinião popular. É fácil perceber porquê. Caso ocorra um acidente nuclear, a contaminação atmosférica segue o mesmo rumo dos ventos. As localidades a norte da central sabem disso. Por outro lado, à medida que nos afastamos da zona da central nuclear, menos pessoas lá trabalham. Em Talayela, também na província de Cáceres, olha-se com uma certa indiferença para a estrutura de produção de energia, como se com isso pudessem esquecer os riscos que ela suporta. “Se ela já cumpriu o calendário de vida, não entendo porque a querem prolongar. Mas como existem interesses económicos de grandes empresas, são eles que sempre comandarão isto”, considera David Sanchez. “A agricultura, o turismo, são oportunidades que se podem agarrar após um fecho de Almaraz, mas não se fala nisso”, lamenta enquanto garante que no posto de combustível onde trabalha Almaraz tem sido um dos temas mais abordados por quem ali passa. “Estas notícias de que podem prolongar a vida da central está a alarmar as pessoas”, conta.

“Tenho medo, é evidente. Se existem outras alternativas para trazer emprego, que se trabalhe nisso. Ainda está por se saber que efeitos provocou Almaraz nesta região, sobretudo na linha geográfica do corredor de vento e no Rio Tejo até Lisboa. Aqui temos um índice de cancro muito alto e porque não pensar que pode ser disto?”, questiona Loly Gutierrez. No café de Guilhermina Mendonça, em Segura, primeira aldeia de Idanha-a-Nova que se encontra quando se passa a fronteira para o lado de cá acompanham Almaraz pela televisão. Desolada com a falta de clientela, queixa-se que o despovoamento “vai matar” estas terras. “Falam, falam na televisão sobre Almaraz. Acho bem, mas que olhem para as pessoas desta região. Depois dos velhos morrerem, o que cá fica?”.

VIGILÂNCIA

No telhado do Centro de Interpretação da Biodiversidade em Segura, em Idanha-a-Nova, estão a ser monitorizados os níveis de radioatividade da Central Nuclear de Almaraz. A iniciativa partiu da plataforma cívica Tejo Seguro, que integra cidadãos e instituições de Castelo Branco, que instalou uma sonda em Segura, a 100 quilómetros daquela central nuclear. O objetivo deste projeto é disponibilizar informação independente sobre o nível de radiação ionizante medido na atmosfera na fronteira com Espanha (fronteira de Segura e ponto do território português mais perto da central nuclear de Almaraz). O projeto irá monitorizar a radioatividade durante um ano.

O projeto Tejo Seguro surgiu em julho, através de um movimento cívico, que se propôs adquirir e instalar uma sonda Geiger-Muller, de baixa sensibilidade e capaz de medir radiação beta e gama, e desenvolver uma plataforma ‘web’ para monitorizar remotamente o nível de radiação ionizante medido na fronteira com Espanha.

As sondas transmitem em tempo real informação para uma plataforma informática (http://allbesmart.ddns.net/tejoseguro). Os dados medidos em uSv/h (Micro Sievert por hora) são mostrados neste website e atualizados a cada dez minutos.

Esta iniciativa cívica envolve a associação ambientalista Quercus, docentes do Instituto Politécnico de Castelo Branco, o Centro de Empresas Inovadoras (CEI), o FabLab, a Associação de Informática de Castelo Branco, ativistas pelo rio Tejo, o meteorologista Costa Alves, entre outros.

“Vai servir de aviso porque, infelizmente, as estações de monitorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a informação que temos, é que estão em manutenção há vários anos e estão desligadas atualmente. Este sensor vai permitir ter essa monitorização e uma avaliação independente, com dados reais, e vai servir como alerta no caso de existir algum incidente”, explica Samuel Infante.

O ambientalista da Quercus adianta que em relação às entidades e autoridades espanholas “já se viu que não se pode confiar no Governo nem nas autoridades espanholas, porque todos os incidentes que houve nestes últimos anos Portugal não foi informado ou foi informado meses depois”.

Este procedimento é, segundo o ambientalista, incorreto, pelo que entende que não há nada melhor como ter uma fonte independente de informação.

Os promotores arrancaram em julho com uma campanha para angariação de fundos para o projeto, cujo valor do investimento calculado era de 2.550 euros.

A campanha terminou no final de setembro e contou com a participação de 66 apoiantes, cuja comparticipação permitiu a aquisição do material e a construção da plataforma ‘web’.

Outro objetivo deste projeto é sensibilizar para a presença constante do risco que é a central nuclear espanhola de Almaraz, situada a apenas 100 quilómetros da fronteira portuguesa de Segura.

Na terça-feira, dia 10, às 21 horas, os níveis apurados pela sonda eram de 189 nSv/h (Micro Sievert por hora), portanto um “Nível não preocupante”. A mesma plataforma explica que “o Laboratório de Proteção e Segurança Radiológica do Instituto Superior Técnico considera 300 nSv/h como primeiro nível de alerta “.

Célia Domingues