InícioEconomia“Não investir porque não existem pessoas, não é desculpa”

“Não investir porque não existem pessoas, não é desculpa”

O comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, em entrevista ao JF

JORNAL DO FUNDÃO – Que apoio disponibiliza a Comissão Europeia aos territórios portugueses devastados pelos incêndios florestais?

CARLOS MOEDAS – Portugal acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil e a Europa conseguiu rapidamente enviar mais de 200 bombeiros, mais de 50 veículos, para Portugal. Tivemos a capacidade, através da minha colega comissária para a Política Regional, Corina Cretu, de conseguir alocar 45 milhões de euros dos Fundos Estruturais e de Investimento para poderem ser imediatamente utilizados no caso desta catástrofe dos incêndios, seja nas pequenas e médias empresas, seja nas infraestruturas e na parte municipal.

A quem compete gerir esse orçamento?

Cabe ao Governo gerir essa verba. Na minha área de investigação, estamos a colocar mais de 100 milhões de euros de fundos para os próximos anos para o trabalho da prevenção e do ordenamento do território, que eu espero que possam ser também aproveitados por Portugal no sentido da prevenção, que é o mais importante. Obviamente quando temos o desastre temos de atuar, mas temos de pensar no futuro e de como vamos evitar estas catástrofes. A prevenção é melhor do que a cura e é nisso que vamos trabalhar em termos de investigação e ciência.

Há um trabalho de consciencialização social a fazer e outro no terreno…

… Que é o ordenamento do território e como vai ser feito. Vi na região centro, em Mação, bons exemplos desse trabalho e de como pode ser feito e vi também os maus exemplos e os efeitos que isso tem. Podemos tentar combater o fogo e isso foi um forte investimento que foi feito em Portugal, mas temos de pensar que só o combate não chega. Se não criarmos as condições para reduzir o risco e o número de incêndios, o combate por si não chega. Aquilo que a Europa pode fazer é ser um exemplo das melhores práticas e poder mostrar, explicar, através da investigação e da ciência, aquilo que são as melhores práticas nos vários países da União Europeia.

A Comissão Europeia garante esse apoio financeiro?

Não é por falta de dinheiro da Comissão que este trabalho não será feito. Tem de existir uma vontade do país no seu todo, não pode ser uma discussão com a política, mas da unidade do país. Isso é importante: focarmo-nos no problema e deixarmo-nos de discussões políticas que pode vezes não nos levam a lado nenhum.

Está prestes a abrir o próximo quadro de fundos estruturais para o ciclo entre 2020 e 2027. Em Portugal, o PS quer debater com o PSD o pacote de investimentos públicos prioritários. A Beira Interior reclama o IC 31 (ligação a Espanha) e IC 6 (ligação Covilhã – Coimbra). Faz sentido este pedido de coesão nacional quando União deverá ter menos orçamento pela saída do Reino Unido?

Penso que Portugal aproveitou e bem os chamados Fundos Estruturais durante muitos anos. Obviamente, quanto maior é o grau do nosso desenvolvimento, mais teremos que nos focalizar noutro tipo de fundos que são os competitivos, que é o caso do meu programa Horizonte 2020. Portugal tem de começar também a apostar nestas áreas porque vai passar, e já passou, um grau de desenvolvimento que por isso vai tendo cada vez menos fundos estruturais. É uma realidade com que temos de viver. Contudo, Portugal vai ter sempre fundos estruturais que são importantes para as infraestruturas do país e aquelas que forem necessárias. Mas isso são decisões que não competem à União Europeia mas aos governos.

E está atingido esse grau de desenvolvimento entre Litoral e Interior?

Não, em nenhum país. O grande problema que hoje vemos na Europa é a diferença do grau de desenvolvimento entre Litoral e Interior. Isso é a grande diferença entre os países muito ricos e os países pobres. Por isso temos de lutar para reduzir essa diferença entre o Interior e o Litoral.

A falta de densidade populacional é dada com o argumento para sustentar ou não o investimento…

Não haver pessoas não é desculpa, porque é um bocado como a pescadinha de rabo na boca. Não se faz o investimento, porque não há pessoas e se não há pessoas não há investimento. Tem de haver investimento para atrair população. Quem não gostaria de viver no Interior se tivesse um bom emprego, boas oportunidades? A atração de pessoas faz-se pelo emprego e pelo investimento.

Célia Domingues