InícioDesportoMulher com apito e sem papas na língua

Mulher com apito e sem papas na língua

JORNAL DO FUNDÃO – De onde vem o gosto pela arbitragem?

CAROLINA PONTÍFICE – Na verdade inicialmente não tinha tal gosto, gostava sim de futsal, melhor dizendo adoro. Comecei no apoio a uma equipa sénior masculina, à qual me sentava no banco e muitas vezes me arreliava com as decisões dos árbitros, porque quando se está a perder a culpa tem de cair sempre em alguém. Depois e um pouco mais tarde ajudava nos mais pequeninos e na realidade até dava treinos, e a vontade de aprender mais, surgiu. Até que houve um clique e vi um cartaz de um curso de arbitragem, juntei o útil ao agradável, inscrevi o meu irmão também.

Em que momento sentiu o chamamento para ser árbitro?

Depois de ter visto o cartaz do curso de arbitragem, senti que seria o momento certo para o fazer, aí senti que podia ser arbitra. Já que não jogaria futsal, porque não havia assim tantas equipas, era uma boa maneira de me ligar ao futsal. Após ter terminado o curso e estar a gostar imenso, seguiu-se o primeiro jogo, nada fácil e perturbador. Lembro-me como se fosse hoje, porque no fim do jogo, apesar de estar a começar, eu pensei que não queria fazer mais nenhum jogo. Pensava eu, como é possível num jogo de miúdos haver logo duas expulsões… Era inacreditável para mim. Mas depois decidi que tinha de fazer mais jogos e aí o gosto chamou mais alto.

Como é vista uma mulher a exercer uma atividade maioritariamente masculina?

Por uns é bem vista, por outros nem por isso, é um misto de opiniões. Algumas pessoas ainda têm a mentalidade de que é um desporto só para rapazes. Outros pensam que é importante e que fica bem. Na realidade não senti nenhum desprezo, e até me sinto bem. Talvez sinta um pouco mais retraída quando existem mulheres a assistir aos jogos, elas são mais rígidas, mas também mais descaradas, “sem papas na língua”.

Ao longo dos seus cinco anos de carreira que dificuldades tem sentido?

As dificuldades aparecem no início da carreira, hoje em dia não sinto assim tantas dificuldades em exercer e lidar como árbitra. Eu gosto mesmo, e quando se gosta tudo se ultrapassa, errar todos errámos, mas o mais importante é saber que errámos e admitir que o fizemos, embora por vezes não se possa divulgar muito. Mas como tudo na vida, surgem sempre dificuldades, em saber regras, em aplicá-las, fazer testes, nervosismo num jogo… São estas pequenas coisas que nos fazem crescer.

Como é que os jogadores de equipas masculinas reagem à arbitragem de uma mulher?

A meu ver os jogadores mais velhos, os seniores, reagem bem, até acho que respeitam mais. Existe mais contenção nas palavras proferidas. As camadas mais jovens, inicialmente não eram assim tão recetivas, mas tudo se torna de um hábito, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Mas hoje em dia não é estranheza ver-se uma mulher nestas lides, até porque já se vão vendo equipas femininas e algumas raparigas nas camadas mais jovens. Contudo ainda existem muitos comentários, nos pavilhões, sobre a arbitragem no feminino, pessoas a dizerem: “hoje é uma menina”. Mas no geral os jogadores, equipas e dirigentes, reagem bem.

Alguma vez se sentiu desautorizada?

Sim, quem me conhece sabe que eu sou bem calma e gosto de fazer as coisas com cabeça, mas já tive momentos em que não me conseguia fazer “ouvir” nas minhas decisões. Eu sou de estatura pequena e houve um jogo que após ter apitado uma falta, e mostrado cartão, fiquei “engolida”, uma expressão talvez exagerada, pelos jogadores. Rodeada deles e todos a protestar, coisas normais dos jogos, mas à qual eu me senti desautorizada, por não conseguir lidar com a situação.

E o público que costuma ser tão pouco simpático para os árbitros. Como é que a trata?

Esta é uma questão complicada de responder, o público pode ser tudo. Simpático, antipático, agressivo… É uma mistura de tudo um pouco, porque também existem pessoas diferentes umas das outras. Mas vejamos que quando a equipa que apoiam, está a perder, são uma coisa, quando está a ganhar são outra. Mas são situações normais de quem sofre pela modalidade. Eu costumo dizer que a mim até me tratam bem, oiço tantas vezes, menina isto, menina aquilo. Embora nem sempre seja positivo, maioritariamente não o é, mas eu vejo sempre as coisas pela positiva, não me adianta ligar a tais comentários, muito menos me chatear.

Qual o episódio mais caricato que viveu na sua carreira?

Sinceramente não me ocorre assim nenhum episódio para o classificar como caricato. Existem situações que vão acontecendo, que dão momentos de riso, entre nós árbitros e para quem percebe do lado de fora. Lembro-me um momento engraçado, ao chegar a um pavilhão, para fazer um jogo de iniciados, deparo-me com os jogadores a comentar: “o árbitro é uma rapariga”, com ar de espanto e admiração. Um pouco perturbador, e sem reação, mas em sorrisos. Existem outros momentos divertidos, que na realidade se tornam incómodos, como esquecer da bola, apito ou moeda, na saudação inicial e ser preciso deslocar ao balneário.

Qual o jogo mais difícil que arbitrou (que lhe deu mais trabalho)? Porque?

Muita gente pensa que os jogos de seniores são os mais difíceis, mas na verdade as camadas jovens são mais complicadas de realizar. Os seniores embora por vezes se exaltem e exista confusões, são mais maduros e já têm outra mentalidade. As camadas jovens, são miúdos e por vezes impulsivos, sem pensarem no que estão a fazer. Não consigo classificar um jogo difícil, porque todos são difíceis. Mas assim mais difícil é ver miúdos em agressões, talvez isso seja complicado, de ver de agir e até de lhes tentar comunicar que não se pode proceder assim.

Alguma vez se sentiu descriminada pelo facto ser mulher?

Sim, coisas simples e que muita gente possa pensar que são insignificantes. O facto de não existirem dois balneários, e ser necessário esperar mais tempo. Entre colegas, que estão sempre com pressa, e dizem eles que as mulheres demoram muito mais tempo, mas que na realidade muitos deles demoram o dobro do tempo.

Mas sentir-me mesmo descriminada, foi no início, embora isso ainda não esteja ultrapassado, a dificuldade que eu sinto em conseguir ter um jogo de seniores e posteriormente progredir na carreira. Se não tiver jogos, não posso evoluir, nem aprender mais, à qual estou sempre limitada, por mais que eu queira.

Atualmente a arbitragem em Portugal vive momentos conturbados. Como “olha” para esses acontecimentos?

Não quero muito falar sobre este assunto. A minha opinião consiste em que todos nós que temos esta “profissão”, devemos de cumpri-la o melhor que sabemos e pudermos, embora tudo se corrija e aperfeiçoe com estudo e visualizações de jogos. Errar é humano e ninguém está livre de tal coisa, mas o mais importante e para mim é uma virtude é sem duvida saber que errámos, admiti-lo e tentar combater essa falha na nossa maneira de agir.

Gostaria de arbitrar equipas a nível nacional?

É claro que sim, quem é que não gostaria. Espero vir um dia a conseguir, vou fazer por isso.

Até onde quer ir na sua carreira?

Gostava de subir até ao topo, mas sei que é muito difícil e é necessário muito trabalho. Muita gente pensa que isto da arbitragem não necessita de estudo, mas na verdade é preciso muito, estudar as leis, sabe-las bem entre normas e pormenores importantes. Só se consegue ser bom árbitro, se houver um estudo constante e posteriormente uma boa condição física. Também acho que nós mulheres é sempre mais complicado de subir na carreira, não digo impossível, mas é difícil, não nos dão tantas oportunidades como desejaríamos, mas isso é o que eu sinto. Agora vou terminar o meu curso e depois quem sabe apostar mais ao nível da arbitragem.

Pedro Silveira