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A aldeia que fala a linguagem universal da música

A PAISAGEM para um visitante ocasional é semelhante a tantas outras que lavram os horizontes da Beira. Na sumptuosidade desta visão quase infinita que é chão de tantas terras varridas pelo esquecimento, tragadas pelas vagas de emigração, reféns de uma ausência vincada tão explícita nas casas que já não se habitam e nas saudações que já não se trocam nas ruas, ainda há  quem não se conforme. Ainda há quem ache que vale a pena  levantar  o véu  da indiferença e olhar para este horizonte que se ergue perante nós e dar-lhe uma tonalidade de esperança. Não é, de todo, fácil, quando a população residente andará algures entre as duas e as três centenas, quando a escola do primeiro ciclo tem quatro alunos, quando aquilo que já vimos em tantos lugares desta região se replica aqui. É a velha história que se conta sobre o Interior a perder vida e esperança a um ritmo frenético e descontrolado.

E o que fazer desta saudade que se alimenta em cada rua, em cada ausência, em cada porta fechada?  O que fazer dos velhos preconceitos sobre estes lugares, que supostamente deveriam estar quietos e calados à espera do inevitável fim?  A Bendada, no concelho do Sabugal,  talvez nos tenha dado, inadvertidamente, uma resposta tão clara quanto ousada: Arriscar; não  ir pelos caminhos mais fáceis  e dizer que há uma linguagem universal que nos supera e que nos liga: a música. E que essa linguagem pode ser falada no coreto, nas ruas, na Casa da Música, nas residências de cada um. E pode ser falada entre convidados de tantas nacionalidades, vindos da Sérvia, Moldávia, Argentina, Itália, etc., que percorrem as ruas da aldeia durante uma semana;  ensinando e maravilhando  públicos com  os seus talentos musicais. A música sempre correu pelas veias desta comunidade e isso é mais forte do que qualquer fim anunciado. Contra as profecias, a magia da música. A magia que congregou gerações da Bendada nos ranchos e na banda filarmónica da aldeia, cujos quadros dos elementos integrantes estão orgulhosamente expostos na Casa da Música, uma obra notável localizada no centro da aldeia.

Veja na edição impressa do JF toda a reportagem, a propósito do festival que ali decorre até dia 22.