InícioCovilhãO “Travolta” beirão que agora manda na dança em França

O “Travolta” beirão que agora manda na dança em França

Cada vez mais os emigrantes portugueses espalhados pelo mundo ganham protagonismo em diferentes áreas, liderando autarquias, empresas ou instituições. Trazemos mais um caso, neste caso na dança. É que o novo presidente da Federação Francesa de Dança é português, mais concretamente um beirão da Covilhã.

José Carlos Ferreira, de 55 anos, aproveitou as férias de verão para vir descansar à terra natal. É na tranquilidade do Tortosendo que recarrega baterias para uma missão exigente, que abraçou ao março. “Eu já era vice-presidente desde 2007 e acabou por ser um desfecho normal, porque as pessoas me reconheciam capacidade. Tenho uma vasta equipa comigo, com formação superior em diferentes áreas. Um dos objetivos é chegarmos aos 100 mil federados. Depois queremos mais medalhas nas competições europeias e mundiais. Recentemente, na Polónia, conseguimos o bronze em danças latinas nos Jogos Mundiais da Juventude.”

A federação congrega todos os estilos, desde as tradicionais danças de salão ao mais modernos hip-hop, um estilo que, curiosamente, vai integrar o programa dos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018 na Argentina e no qual muitos países estão a apostar. Depois, há ainda ballet, rock, jazz, sapateado e dança contemporânea.

Carlos Ferreira não chegou por acaso à Federação. É uma verdadeira “instituição” da dança em território francês. Tudo começou nos anos 70. O então jovem beirão tinha acabado de chegar a França com os pais, como tantos outros milhares de portugueses. Nos tempos livres da família, a dança estava sempre presente. “Os meus pais gostavam de dançar, naqueles bailaricos que se faziam um pouco por todo o lado. Eu também ia aprendendo alguma coisa, mas o gosto pela dança mais a sério surgiu quando tinha 16 anos. Eu queria aprender o rock’n’roll e o funky, que já se via nas discotecas. Havia gajos com muito estilo e eu queria ser como eles. Para além disso, havia a influência do cinema, era o tempo de Travolta, do Saturday Night Fever. Toda a gente me dizia que eu tinha muito jeito e decidi ter aulas em Toulouse. A professora puxou muito por mim durante dois anos, evoluí bastante e aos 18 anos já estava a dar aulas aos mais novos”, conta Carlos Ferreira, revelando, entre uma gargalhada, que tinhas as raparigas das redondezas aos seus pés.

Sempre interessado em melhorar, o jovem beirão ia a congressos com grandes mestres em Inglaterra, Itália e outros países. Chegou a pagar o equivalente a 120 euros a hora. Para suportar essas despesas, trabalhava no duro durante o dia, num matadouro na cidade de Castres, onde residia. Mas enquanto cortava carne, o sonho não lhe saía da cabeça. E em 1984, com 22 anos, decidiu arriscar tudo, criando a sua primeira escola de dança. As coisas correram bem em Castres e rapidamente a “École de Dance Carlos” alargou horizontes. Abriu filiais noutras cidades. Também se deslocava regularmente a instituições maiores para dar aulas individualizadas. O negócio cresceu. A irmã de Carlos, Mónique, juntou-se à empresa, até hoje.

Ao mesmo tempo, os irmãos faziam par nas competições de dança em França, que começaram a expandir-se. “Não havia muita tradição de danças de salão entre os franceses, mas aos poucos as provas foram aparecendo. Chegámos a várias finais e em 2000 conquistámos a medalha de bronze no campeonato nacional.”

A “École de Dance Carlos” continuou a crescer, atingindo mais de 700 alunos. Lá ensinam de tudo um pouco, até a moda da zumba. Negócio é negócio. “Mesmo que não seja muito exigente tecnicamente, é algo que põe as pessoas a fazer uma atividade física e isso é muito importante. Os programas de dança que têm levado figuras públicas à TV também estimulam o negócio”, explica Carlos, que já pouco faz na sua escola: “É a minha irmã e a minha mulher, Nathalie (uma francesa que conheceu na dança), que agora gerem a escola. Eu tenho de dedicar-me praticamente a 100 por cento à Federação. A sede é em Paris e eu tenho de estar lá três dias por semana.”

Filipe Sanches