InícioBelmonte“Vinhos feitos por mulheres estão na crista da onda”

“Vinhos feitos por mulheres estão na crista da onda”

Virgílio Loureiro é o “compositor” e “autor” dos famosos vinhos Quinta dos Termos, adega privada gerida por João Carvalho, que fica no concelho de Belmonte. Foi professor, é investigador e desde jovem que sente uma certa paixão pelo mundo do vinho. É um dos maiores especialistas portugueses de vinhos

JORNAL DO FUNDÃO – De onde veio este gosto pelos vinhos?
VIRGÍLIO LOUREIRO – Convivo com o vinho desde de criança, pois o meu pai era enólogo no Dão e o meu avô produzia bastante vinho, em Viseu, que era disputado pelas caves de espumante da Bairrada. A paixão surgiu muito mais tarde, depois de ser agrónomo e já fazer vinho em algumas quintas. O clique deu-se quando me tornei produtor na Quinta das Maias, em Gouveia, e percebi que é muito diferente fazer o próprio vinho. Quase que por encanto passou a ser uma paixão. Em vez de me preocupar com os defeitos já só pensava nas suas qualidades e em apurá-las cada vez mais.

A Quinta dos Termos, em Belmonte, produz um dos melhores vinhos da região. Como investigador e enólogo dos vinhos Quinta dos Termos, foi difícil chegar à receita perfeita?
O projeto da Quinta dos Termos tem sido muito gratificante para mim e para o colega que me acompanha. Os proprietários da quinta são fantásticos, não só pelo empenho, profissionalismo e paixão com que abraçaram a atividade de vitivinicultores, mas também por terem confiado nas minhas ideias e na forma como encaro o vinho. Quando há grande cumplicidade entre produtores e enólogo tudo se torna fácil, mesmo que às vezes se fuja às regras do mercado e se tenha de lutar contra os ditames da moda.

É “autor” dos vinhos Quinta dos Termos. O que o surpreendeu mais?
Eu prefiro dizer que o “autor” são as uvas. O produtor e o técnico da viticultura – o colega Francisco Santos – que tratam as videiras com extremo desvelo, são absolutamente decisivos. Eu limito-me a evitar que o enorme potencial que as uvas têm quando chegam a adega, com a preciosa ajuda de toda a gente que lá trabalha, se perca por desatenções ou descuidos. A região não me surpreendeu, apenas confirmou o enorme potencial que eu lhe adivinhava, pois não é muito diferente da que está do outro lado da Serra e que eu já conhecia desde menino.

O clima, o tipo de solo, as castas são fatores de identidade de um território. O que é preciso para se fazer um bom vinho?
Além dos fatores que referiu eu acrescentaria a história e a tradição vitícola da região, que são milenares. A originalidade das castas, tanto brancas como tintas, associa-se a um clima de expressão continental e à baixa fertilidade do solo para, com a paixão de quem produz, fazer vinhos deliciosos, que, infelizmente, são ainda injustamente desconhecidos da maioria dos portugueses.

Sempre ouvimos dizer que o Interior não tem nada a ver com vinho. Concorda?
Permito-me discordar do seu pressuposto, pois a aristocrática e cristianíssima Beira Interior venera o vinho desde tempos remotos – durante séculos entendido como o “sangue de Cristo” – fruto dos inúmeros mosteiros que existiram na região. Gostaria ainda de acrescentar que tive conhecimento de uma descoberta arqueológica “sensacional” que ocorreu na região do Fundão há alguns anos e que, espero, traga, quanto antes, luz à história do vinho da Cova da Beira.

Como caracteriza os vinhos desta região?
Não é fácil caracterizar os vinhos da Beira Interior, pois a profusão de estilos que hoje abundam na região dificulta a tarefa. Quando se usam as castas tradicionais da região, como é norma na maioria dos vinhos da Quinta dos Termos, o estilo dos vinhos é fiel ao perfil da Velha Europa, onde a frescura da acidez, a delicadeza de aroma, a irreverência da sua textura e da sua encantadora adstringência, a elegância e a capacidade de envelhecimento são marcas que emocionam o enófilo mais sensível.

O que é isto da “cultura do vinho e do vinho como cultura?”
Já não é a primeira vez que me fazem essa pergunta, pelo que lhe vou responder como já o fiz anteriormente. Na minha perspetiva a cultura do vinho não é mais do que a fascinante história desta bebida ao longo de oito milénios de civilização mediterrânica. O estatuto que atingiu foi tal que hoje ninguém hesita em considerar o vinho o maior símbolo desta civilização. O vinho como cultura não é mais do que o seu consumo de forma aprimorada, dando prazer ao corpo, mas principalmente ao espírito. Quando só se pretende proporcionar prazer ao corpo eu prefiro chamar-lhe “copos”.

É um dos maiores especialistas em vinhos em Portugal. Os enólogos portugueses foram na sua maioria formados pelo professor. Como se sente neste papel?
Quando percorro o País e as ilhas e sou efusivamente reconhecido por muitos colegas, a maioria deles antigos alunos, sinto enorme satisfação, pois é sinal de que ainda se lembram do tempo em que lhes dei aulas. Curiosamente nunca lhes dei aulas de vinhos, pois as matérias que eu dava em Agronomia eram no domínio da Microbiologia e da Biotecnologia. Reconheço que sem a Microbiologia não é fácil ser enólogo, mas o mais importante, que foi preocupação minha enquanto professor, é fazer-lhes ver a floresta em vez da folha da árvore. Qualquer atividade técnica só é bem desempenhada e criativa quando se tem a ideia de conjunto, sentido crítico e se resiste à tentação de seguir as modas ou copiar quem tem sucesso.

Apareceram nessa área mulheres enólogas e até empresárias ligadas à vinicultura. Acha que as mulheres têm um savoir faire especial?
Há cada vez mais mulheres ligadas ao vinho, nas mais variadas atividades: enólogas, viticólogas, empresárias, cientistas, provadoras, marketeers, escanções, etc. E ainda bem que assim é, pois têm vindo a imprimir a sua marca no setor, que durante séculos foi “terra de homens”. A sua sensibilidade, argúcia, sentido de humor e forma de estar enriquecem cada vez mais o vinho português, aquém e além-fronteiras. O vinho está, de facto, na moda, e o feito por mulheres na “crista da onda”. Quanto ao estilo dos vinhos acho que o género não tem influência. A personalidade, a cultura e o sentido crítico é que são importantes, quer para mulheres quer para homens.

“Provar vinho não se ensina, aprende-se”, concorda?
Recorro a esta frase com frequência, principalmente quando organizo cursos de iniciação à prova de vinhos. O entusiasmo e também a ingenuidade de muitos dos participantes levam-nos a pensar que ao fim de duas horas já serão peritos em vinhos! Digo-lhes que ao fim desse tempo só é possível apreender as ferramentas para interpretar os vinhos que provam. E acrescento: quanto mais provam, mais aprendem…durante toda a vida.

Quem são os novos consumidores de vinho?
Há cada vez mais consumidores a despertar para o vinho, principalmente a nível global. Nos países não produtores há cada vez mais consumo, embora nos países produtores tradicionais o consumo continue a baixar ligeiramente. Não acho isso grave, pois é sinal que os “beberrões” estão a diminuir. Portugal não foge a essa tendência, não obstante haver cada vez mais jovens a despertar para o vinho e, mais importante do que isso, para a cultura do vinho.

Também se promove Portugal através do vinho?
Segundo um estudo recente, o vinho já compete taco a taco com o sol e a praia na atração de turistas ao nosso País. Veja-se o que está a acontecer no Douro e no Alentejo e o que se prevê aconteça em breve noutras regiões, incluindo a Beira Interior. O turismo já conseguiu passar a mensagem de que beber o vinho no local de produção é uma experiência única, que faz de Portugal um país multifacetado e incontornável para os enófilos. O vinho também é um embaixador de Portugal no mundo, principalmente o Porto, mesmo que continue a ser olhado com alguma altivez por alguns e seja demasiado barato. Como diz o meu amigo Dirk Niepoort: “Temos de andar a bater com um martelo na cabeça das pessoas até perceberem que o vinho português é bom. E quando não percebem, temos de bater mais um bocadinho. Isso dá muito trabalho”. E eu acrescento: os resultados irão aparecer, mas não podemos assumir uma atitude conformista.

Pedro Silveira